quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Cuidado com sua roupa

Fui um dos primeiros a entrar no trem naquele dia. Sentei-me ao fundo, de onde podia ver tudo o que se passasse no vagão. Chamou-me a atenção a entrada de um grupo de pessoas muito bem vestidas. Pareciam ir a alguma festa de gala. Roupa impecável.

Os demais passageiros estavam em seus trajes do dia a dia. Podia-se ver, pela forma como se vestiam, que alguns vinham de trabalhar em construção, outros vinham de fazendas, um grupo parecia, tal era o estado deplorável de suas roupas e as manchas em seus corpos, vir de alguma carvoaria.

Era véspera de réveillon e, embora desconhecidos, estavam todos tão animados, traziam rostos tão cheios de alegria e esperança. Um entusiasmo gentil tomava conta de todos e a todos contagiava.

As pessoas se cumprimentavam, riam, cantavam e, claro, se movimentavam muito.

Para os que se vestiam a rigor tal realidade era um pesadelo! 

Como manter camisas tão claras e bem passadas intactas em meio a toda a bagunça e estardalhaço que os demais faziam? É inacreditável o poder que a roupa tem sobre o comportamento! Uma roupa sob medida, que o comprima elegantemente irá tirar todo seu desejo de pular, correr, jogar-se de qualquer forma sobre o assento.

Porém, a despeito de toda a alegria desimpedida dos que festejavam, havia um respeito solene pelos que estavam em traje de gala. Ninguém lhes pregaria uma peça, tampouco por maldade lhes tocaria as roupas. Era véspera de réveillon! Havia um sentimento de amizade, de companheirismo tão grande! 

Alguns dos que estavam elegantemente vestidos não resistiram a tanta camaradagem e, aos poucos se soltaram e entraram na brincadeira. 

Logo se esqueciam do cuidado com as vestes que usavam e a roupa, pouco a pouco, se desalinhava. Uma sujeirinha aqui, outra ali.

Também os demais os recebiam tão bem e com tanto contentamento que acabavam por acreditar que era bobagem perder aquela diversão toda por causa de uma roupa.

A viagem se prolongava e mais pessoas entravam na brincadeira. Mesmo os que pareciam, a princípio, tão compenetrados, tão envolvidos numa seriedade cuidadosa, se deixavam, com o passar do tempo, se levar pelas músicas e brincadeiras.

Muitos já haviam se esquecido de que o propósito não era a viagem, mas o destino!

E então, o destino chegou.

Cada um seguiu seu caminho. 

Triste foi ver como a alegria dos que antes estavam tão bem vestidos se foi. Ao se depararem com o salão ornado e os demais convidados tão elegantes, deram-se conta de que jogaram tudo fora. Por alguns poucos momentos de diversão a grande e maravilhosa festa estava perdida. Era elevada demais para que fossem aceitos naqueles trajes amarrotas e sujos!

Ah, se eles tivessem guardado suas vestes. Se não se tivessem deixado contaminar pela alegria vã da viagem... estariam agora celebrando.


"Eis que venho como ladrão. Bem-aventurado aquele que vigia, e guarda as suas roupas, para que não ande nu, e não se vejam as suas vergonhas." Apocalipse 16:15 
"Depois destas coisas olhei, e eis aqui uma multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono, e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas nas suas mãos" Apocalipse 7:9

Geovani.

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